HIBRIDAÇÃO E MELHORAMENTO
Roland Brooks Cooke


As espécies naturais de orquídeas de valor decorativo, possuem uma beleza incomum, que foi o principal motivo da fama auferida por estas plantas, desde os primórdios de seu cultivo. Poucas flores podem rivalizar com a beleza real de uma Cattleya, a elegância de um ramo de Phalaenopsis, ou a delicadeza de um cacho de minúsculos Oncidium. Em muitos casos, as espécies, assim como vieram das matas, já possuíam, além da beleza, características florais e vegetativas que permitiam seu uso como elemento decorativo por excelência. A durabilidade das flores era razoável (indo de uma ou duas semanas, para as Cattleyas, até dois meses, para os Cymbidium), e as cores e formas eram muito diferentes do usual. Entretanto, o aprimoramento do cultivo trouxe consigo exigências maiores quanto à qualidade das plantas e flores, no tocante à forma, colorido, textura e facilidade de cultivo. Com a descoberta de que muitas espécies diferentes poderiam ser cruzadas entre si, gerando híbridos, a imaginação dos cultivadores correu solta. Dentro da curiosidade natural do ser humano, surgiu a famosa pergunta "E se..." ("What if..."). Como determinadas espécies reuniam características atraentes, junto com "defeitos" ou melhor, deficiências, logo partiu-se para combinar espécies diferentes, na esperança de ver surgir novas plantas, agrupando as melhores facetas de ambos os ascendentes. Assim teve início o processo de hibridação, iniciado por Dominy em 1856, acelerado enormemente pelo processo de semeadura assimbiótica, e que segue até hoje, em escala cada vez mais complexa. Conforme visto no capítulo sobre genética, esse caminho foi repleto de fracassos, entremeados com alguns sucessos que ficaram famosos, e que abriram caminho para um conhecimento cada vez maior sobre as técnicas corretas para se obter novos híbridos, de alta qualidade.
Os primeiros híbridos, primários (entre duas espécies) pouco acrescentaram à qualidade daquilo que já existia. As flores continuavam com características muito semelhantes às das espécies que lhe deram origem, principalmente dentro do gênero Cattleya. Entretanto, alguns progressos já começavam a aparecer. Por exemplo, a Cattleya dowiana, embora linda por si, com pétalas e sépalas amarelas, e labelo cor de vinho, ricamente decorado com veios dourados, era, e ainda é, considerada uma planta difícil de cultivar satisfatoriamente. Ao ser cruzada com a Cattleya labiata, de flores lilás e crescimento muito fácil, gerou a Cattleya Fabia, que manteve a facilidade de cultivo da C.labiata, e, embora perdendo o amarelo da C. dowiana (pela dominância da cor lilás em Cattleya), apresentou flores de colorido lilás muito escuro, realçado pelo espetacular labelo da Cattleya dowiana. Com sucessivas hibridações, foram surgindo linhagens cada vez mais aprimoradas, com segmentos florais mais largos e espalmados, coloridos mais intensos, substância (e durabilidade) melhor, e até época de floração mais "comercial" (floração durante o Dia das Mães é altamente recomendável, por razões óbvias). A introdução de outros gêneros, com características próprias e desejáveis, veio acelerar ainda mais esse processo. Ainda no tocante às Cattleyas, descobriu-se que, combinando com Laelia purpurata, herdava-se o labelo de colorido púrpura intenso (e, infelizmente, a má forma das pétalas, típica da espécie), com Laelia flava, o amarelo intenso (e tamanho reduzido das flores). Com Brassavola digbyana (Correto: Rhyncholaelia digbyana, mas para efeitos de hibridação vale o nome antigo), o enorme labelo franjado era transmitido (juntamente com certa relutância em florescer), e com Sophronitis coccinea passava-se o colorido vermelho puro, até então inexistente em Cattleya (juntamente com tamanho pequeno e dificuldade de cultivo). Assim, as hibridações tinham o objetivo de agrupar algumas destas virtudes numa única planta, se possível sem carregar os traços negativos. Entretanto, na quase totalidade dos casos, as hibridações não tinham essas metas de forma clara. Eram mais obras da curiosidade dos cultivadores, junto com a disponibilidade do que estivesse florido naquele momento, e que pudesse ser assim combinado. A qualidade das plantas matrizes era também muito precária. Evidentemente, os exemplos de sucesso, híbridos que apresentaram qualidades superiores, eram muito raros. Apenas alguns poucos hibridadores, que se dedicaram a estudar a genética das orquídeas, realizando cruzamentos com objetivos claros em mente, tiveram índices de sucesso razoáveis. Nos Estados Unidos, foram profissionais como Robert Scully, Ernest Hetherington, Fred Carter, Leo Holguin, Clint McDade e outros, que criaram as bases da hibridação moderna. Na Europa, os orquidários Vacherot & Lecoufle, Sander e outros, se destacaram. No Brasil, embora diversos orquidófilos tenham realizado um trabalho sério de hibridação e melhoramento, o grande expert nesse ramo foi Rolf Altenburg, fundador do orquidário Florália, que, entre 1955 e 1980, criou cerca de 3000 novos híbridos, dos quais cerca de uma centena foram reconhecidos mundialmente como de qualidade superior.
Alguns híbridos, por suas características desejáveis e dominância genética, se destacaram na história da orquidofilia. Essas plantas, "matrizes", deram origem a uma vasta descendência, lançando as bases para a moderna técnica de hibridação. Embora hoje suas qualidades não fiquem tão destacadas em comparação com as novidades que surgem a cada ano, devemos ter em mente que quase todos os híbridos de alta qualidade, possuem essas "matrizes" no seu "pedigree". Alguns exemplos são Cattleya Bow Bells (C.Edithiae x C.Suzanne Hye), a primeira alba de alta qualidade, florida pela primeira vez em 1944, em Londres, em meio ao bombardeio alemão, a Brassolaeliocattleya Norman’s Bay, lilás a magenta, as Laeliocattleya Derna e Edgard van Belle, amarelas com labelo vermelho, a Sophrolaeliocattleya Anzac, magenta avermelhada, a Brassolaeliocattleya Fortune, amarelo concolor, e a Laeliocattleya Bonanza, lilás. Mais recentemente surgiram a Brassolaeliocattleya Waikiki Gold, a Brassolaeliocattleya Toshie Aoki e a Brassolaeliocattleya Oconee, todas geradoras de descendência com alta porcentagem de plantas com qualidade superior ao padrão.
Nas últimas três décadas, surgiu uma nova tendência na produção de plantas de qualidade superior, o melhoramento, ou seja, a obtenção de plantas de melhor qualidade, dentro da própria espécie, sem recorrer a hibridações com outras espécies. Essa tendência teve origem no preconceito que alguns orquidófilos apresentavam (ainda hoje!) contra os híbridos de modo geral. Os híbridos, por serem "artificiais", seriam um "atentado à natureza", uma vez que não ocorriam nas matas. Acontece que alguns poucos orquidófilos, de maior sorte e/ou condição financeira, eram proprietários da maioria das formas selecionadas das espécies, e preservavam sua exclusividade com afinco. Com o advento da clonagem, muitas dessas plantas selecionadas foram multiplicadas, assim tornando-se acessíveis a qualquer orquidófilo interessado. Por outro lado, a crescente escassez de orquídeas nas matas, e a proibição de sua retirada da floresta, dificultava cada vez mais o surgimento de plantas "superiores", provenientes da natureza. Assim, os orquidófilos aficionados por espécies, passaram a cruzar plantas selecionadas, da mesma espécie, entre si, para, num processo semelhante ao da hibridação, obter plantas de melhor qualidade, sem, no entanto, perder a designação de "espécie". O processo envolve basicamente a seleção de duas plantas, da mesma espécie, que são cruzadas entre si. Alternativamente a autofecundação também é utilizada. As plantas daí resultantes são cultivadas até a floração, sendo então escolhidas aquelas de qualidade mais desejável, de preferência superiores aos ascendentes. É a primeira geração, ou F1. As plantas escolhidas dessa geração são então cruzadas entre si (ou autofecundadas), obtendo se a segunda geração, ou F2. Repete-se o processo de seleção, e cruzamento, obtendo-se F3, F4 e assim por diante. Os resultados, como seria de se esperar, são exemplares das espécies, com aspectos muito superiores às plantas originais. O processo é, naturalmente, extremamente moroso, considerando que cada geração leva 5 a 8 anos para florir. Também não há um registro formal do trabalho, como existe nos híbridos (o Registro de Híbridos da RHS), o que vale dizer que é um trabalho geralmente conduzido por uma pessoa, e que pode se perder com o desaparecimento dessa pessoa após muitos anos de trabalho. No Brasil, grandes progressos têm sido alcançados com algumas espécies como Cattleya loddigesii, Cattleya intermedia e Laelia purpurata. No Japão, têm surgido clones de Sophronitis coccinea e Cattleya walkeriana, que superam de longe qualquer planta oriunda da mata.
Para aqueles que desejam se aventurar na atividade de hibridação e/ou melhoramento, seguem alguns conselhos, que certamente ajudarão a evitar desapontamentos:
Resista à curiosidade aleatória. Ao depararmos com duas orquídeas floridas, no início da nossa vida de orquidófilo, surge automaticamente a tentação. "E se..." eu cruzar as duas? Naturalmente, a curiosidade de ver como funciona o processo de fecundação e formação da cápsula de sementes, é muito grande, e é um passo importante no aprendizado sobre as orquídeas. Essa curiosidade, muitas vezes, se estende para ver como é feito o semeio, o repique para vasos coletivos, todas as fases de cultivo, até a floração. É nesse ponto, sete ou oito anos depois daquele "E se...", que vem o desapontamento, ao ver que aquela multidão de plantas, que foram cultivadas carinhosamente por aquele tempo todo, resultaram em verdadeiras "bombas". Lembre-se do axioma da fotografia: Uma foto ruim, tremida, tirada com uma máquina de camelô, custa exatamente a mesma coisa, em filme e revelação, do que uma foto de boa qualidade, que se pode colocar num álbum e mostrar aos amigos sem susto. No caso das orquídeas, o tempo, trabalho e dinheiro despendido no cultivo de plantas de má qualidade, também são iguais aos de plantas boas. Portanto, resista àquela tentação de sair cruzando tudo que ver pela frente. Apenas plantas de alta qualidade, comprovada pela experiência anterior positiva, devem ser usadas como matrizes. Qualquer tentativa sem observar esse quesito, pode até surpreender e dar progênie muito boa, mas será sempre uma aposta de alto risco.
Fixe objetivos claros. Afinal, o que se quer dessa cruza? "Só prá ver no que dá" não é boa justificativa (vide acima). Os objetivos podem ser desde tentar transferir certas características boas de uma matriz (como pétalas largas, por exemplo) para outra (como colorido mais intenso), até mudar a época de floração, hábito de crescimento, número de flores etc. Tudo pode ser justificativa, desde que essa meta esteja bem clara na mente do hibridador. Assim, ele poderá manter um registro dessa meta, de modo a aferir se houve sucesso ou não, o que pode ajudar no futuro uso dessas matrizes. Por outro lado, se os objetivos forem mais especulativos (com menor chance de ocorrer, dada a experiência anterior), é provável que o hibridador queira produzir um número menor de plantas, de modo a limitar seu prejuízo caso o resultado seja desfavorável. Se o objetivo é mais factível, e utilizam-se matrizes com experiência comprovada naquele item, pode interessar ao hibridador investir num grande número de plantas descendentes, pois há confiança de que haverá mercado para essa produção.
Não perca tempo "reinventando a roda". Refazer híbridos já registrados, justifica-se em apenas duas situações: 1) Aquele híbrido resultou tão bom, que é interessante fazer mais, para atender a demanda; e 2) Aquele híbrido, se feito novamente, com matrizes ainda melhores, pode resultar em plantas muito superiores. Fora dessas razões, não há porquê refazer seedlings de híbridos já existentes. Refazer híbridos antigos, como Cattleya Bow Bells, por melhor que essas plantas sejam, é um anacronismo sem justificativa. É preferível sempre partir das matrizes reconhecidas, em novas e interessantes combinações. Uma tendência atual, é o cruzamento de matrizes famosas, com espécies. Essas combinações podem originar novos padrões de colorido, e plantas de grande vigor, embora muitas vezes a descendência seja pouco fértil. Um caso em que "reinventar a roda" pode trazer bons frutos, é no que diz respeito às flores peloriadas, flameadas e "aquinadas" (neologismo derivado da Cattleya intermedia var. aquinii, que apresenta máculas características na extremidade das pétalas, muito atraentes). Os híbridos hoje existentes nesse padrão de colorido, em sua maioria, são descendentes de Cattleya intermedia var. aquinii, que, embora de rara beleza, apresenta forma floral deficiente, com pétalas fechadas sobre o labelo. Essa característica é dominante. Há alguns anos, surgiram novas variedades de Cattleya intermedia "flameada", de forma muito superior. Seria interessante refazer alguns dos híbridos hoje existentes nesse padrão, visando corrigir essa falha, com ganhos expressivos na qualidade das flores.
Não autofecunde híbridos. De modo geral, a alta taxa de heterozigose em híbridos, faz com que, ao serem autofecundados, produzam progênie extremamente desuniforme. Em muitos casos, há retorno das características das plantas resultantes, aos ascendentes (pais) daquele híbrido. Como esses ascendentes geralmente são inferiores à matriz em questão, a qualidade tende a ser inferior. Podem até ocorrer casos de descendentes ainda melhores, mas a probabilidade é muito reduzida. Acreditar que se possa reproduzir um lote de Brassolaeliocattleya Malworth ‘Orchidglade’ FCC/AOS, autofecundando essa matriz, é uma ilusão. Na dúvida, melhor evitar. A exceção fica por conta dos Phalaenopsis, que tem sido autofecundados com algum sucesso.
Faça pesquisa visando saber quais plantas são matrizes. Nenhum trabalho sério de melhoramento ocorre, se não houver um profundo conhecimento do hibridador, sobre as plantas que estão sendo cruzadas. Eventuais "golpes de sorte", cruzamentos feitos "no impulso", que deram resultados superiores, devem ser creditados à sorte de quem as fez, e nunca usados como exemplo. O melhor é estudar o Registro da RHS, que pode ser consultado em forma impressa (livros) ou em microcomputador (há CD’s com o registro completo), visando identificar quais plantas foram extensivamente utilizadas, e quais os produtos resultantes. Caso um híbrido tenha sido usado com freqüência, principalmente nos últimos 10-20 anos, as chances são de que seja uma boa planta matriz.
Escolha plantas saudáveis, e de bom crescimento. O processo de formação de sementes é extremamente penoso para as plantas. Normalmente a planta apresenta crescimento mais fraco na brotação seguinte, e pode nem florir na próxima temporada. Utilizar plantas enfraquecidas, pode matar a matriz, além de produzir pouca ou nenhuma semente fértil. Evite sempre fecundar mais de uma flor em cada haste. Ao selecionar plantas como matrizes, leve em consideração também o hábito de crescimento da mesma. Plantas de cultivo difícil, muitas vezes, transmitem essa característica aos seus descendentes.
Mantenha registros. Pior do que fazer uma hibridação entre duas plantas inferiores, obtendo uma porção de descendentes ainda piores, é cruzar duas plantas das quais nem se sabe o nome. Uma orquídea sem nome, embora possa ter valor decorativo, possui valor rigorosamente zero, para o orquidófilo, e principalmente para o hibridador. Nunca tente adivinhar o nome ou ascendência de um híbrido, a não ser que seja um clone de uma planta muito conhecida. Ao cruzar duas plantas, escreva, numa etiqueta resistente a raios solares e chuva, o nome das matrizes utilizadas (o nome da matriz feminina vem primeiro), e a data da polinização. Fixe essa etiqueta na base da flor, com arame fino de cobre ou outro material. Esses dados deverão acompanhar as plantas resultantes do cruzamento, de modo a permitir sua correta identificação.
Registre seus híbridos, se novos. Caso o híbrido que tenha sido criado não conste do Registro da RHS, é preciso efetuar esse registro, após a floração das primeiras plantas resultantes. No próximo capítulo, esse processo é explicado em detalhes. O registro é importante, para evitar que novos híbridos, muitas vezes de boa qualidade, passem a constar nos catálogos e etiquetas de identificação apenas com os nomes dos ascendentes, o que, depois de certo ponto, torna-se extremamente complexo e moroso.

Elaborado por
Roland Brooks Cooke
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Janeiro 2000